Artigo, Carol Loch, Crônica

Vamos jantar fora? Uma natureba indo ao restaurante

04/04/2016

Depois de mudar meu estilo de vida, nenhuma pergunta gera tanto desconforto na minha família como essa.

É muito raro esse convite partir de mim. Mas, quando parte, os olhares são inesquecíveis. “Será que vai ser num natureba?”; “Ai senhor, é hoje que experimento comida micro-macro-mega-super-biótica”; “Ih, vou passar fome”. Ou: “Hm, boa ideia. Mas onde eu toparia ir não vai ter o que ela comer”.

Como na maioria das vezes eu sou convidada, a situação é ainda mais delicada. Explico: existem dois motivos que levam meus familiares a quererem comer fora, ou é porque vamos comemorar alguma coisa ou é porque alguém quer comer algo “diferente”. E, esse “algo diferente” quase sempre significa: algo que não faz parte da minha alimentação.

E assim começa a troca de olhares no sofá da sala.

Vamos aos personagens:

Olhando para minha mãe, consigo ver Michelangelo se inspirando em seu olhar para fazer mais uma “pietá” esculpida no melhor mármore branco, que consiga expressar tamanha piedade: “minha menina passará fome nesse restaurante, ela vai sofrer, vai ficar desnutrida, infeliz, coitada dela, alguém ajude o meu bebê, tomara que façam uma saladinha, qualquer coisa eu mesma vou na cozinha e faço um legume no vapor”.

O olhar do meu pai é de quem está tranquilo com a decisão, afinal, vai ter peixe (mas pai, sou vegetariana), vai ter macarrão (mas pai, não como trigo), vai ter até sobremesa (mas pai…), perfeito! Tudo que minha menina come (se ainda estivéssemos em 2014, pai).

Meu namorado disfarça, tentando evitar eye contact comigo, porque ele sabe que eu sei o que ele pensa: “Ih, quero só ver no que isso vai dar, ela não vai querer nenhum dos restaurantes. Ou vai fingir que topa, mas vai preparar sua comida antes de ir pra não passar fome. Quero que ela seja feliz jantando fora, mas tomara que eles não aceitem o que ela sugerir, sei que vai ser aquele lá que só tem coisa sem gosto. Eu amo ela, mas queria mandar ver uma pizza hoje, das normais, não aquelas que ela chama de pizza mesmo sem ser. Sério, massa de couve flor? Creme de palmito no lugar de queijo? Vai ser chia também, certeza”.

Enquanto o clima de tensão domina a sala, o silêncio é quebrado pelo barulho do celular do meu irmão: ele está abrindo vários cardápios de restaurantes, para ver se algo irá me agradar. Seja qual for a sugestão que ele irá dar, a frase já começa com “Ó, não sei se vai ser a melhor opção pra você, mas lá tem tal coisa, você pode isso?”.

E minha irmã, que nem mora aqui, está ali também, na câmera do FaceTime esperando ver no que a história vai dar.

Todo esse clima, pra eu responder: “gente, sério, vamos em qualquer lugar que vocês queiram, eu me viro, sério!”.

Embora ninguém acredite de verdade em mim, acabam escolhendo algum, confiando na minha decisão.

– E você, o que vai querer?

– Vou querer essa salada caeser.

– Perfeito.

Todos da família sorriem e ficam felizes que achei algo para comer.

Até que:

– Moço, só que sem o queijo, sem o frango, sem os croutons e sem o molho.

O mundo já está mudando ao meu favor, aos poucos estão incluindo mais opções. 

Mas, até ele mudar pra valer, manterei firme e forte minha filosofia: se a companhia é boa, o que vou comer em tal lugar não deve ser minha maior preocupação.
Sorriso no rosto, risadas e bons momentos é o que alimenta o nosso coração.

Vamos jantar fora? | Carol Loch | Fru-fruta

Comentários

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1 Comment2

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    Reply Marilza 04/04/2016 at 3:41 pm

    Carol, que legal este seu post.
    Também faz seis meses que não como trigo, produtos industrializados, refrigerantes, doces…
    E passo pela mesma situação sempre que saio e como saio muito, sempre causando né?
    Um bj querida

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